Assim como muitos vestibulandos, o mineiro José Gonzaga, 19, não escolheu o curso por vocação. O estudante sempre foi bom em exatas e não se via nas outras áreas —nunca gostou de escrever, por exemplo. A escolha recaiu sobre engenharia de computação, influenciado pelo irmão e pela percepção de um mercado amplo, com boas perspectivas de salário.
Fala em possibilidades, do setor de tecnologia ao financeiro, mas admite não saber ao certo o que faz um engenheiro no dia a dia. “Sei muito pouco sobre a atuação. Queria entender melhor qual é o papel dentro de uma empresa”. No segundo ano de cursinho no Colégio Bernoulli, o maior obstáculo até a faculdade não é cálculo nem física: é a redação.
Entre a promessa de estabilidade e a falta de clareza, José diz que o maior receio é ter escolhido a vertente errada e se decepcionar com o curso ao entrar, algo que já ouviu de colegas que gostavam de matemática. “[Meu irmão] disse que, se pudesse, hoje em dia ele faria engenharia de produção. Animador.”
Não é por acaso que José não está sozinho nessa escolha. As engenharias ligadas à tecnologia —computação, software e eletrônica— estão entre as maiores notas de corte do Sisu 2026.
Para Vinicius Marchese, presidente licenciado do Confea, conselho federal da área, o movimento reflete o momento. “Houve um aumento de estudantes justamente por causa da transformação digital e da inteligência artificial. São áreas do futuro.”
Aquecidas, essas graduações atraem quem, como José, vê na tecnologia uma promessa de empregabilidade. O estudante acredita que o diferencial do curso escolhido é a possibilidade de trabalhar com hardware —parte física de um dispositivo eletrônico ou computador.
A engenharia de computação é um curso de fronteira, que transita entre o físico e o digital. Dependendo da universidade, o foco pode recair sobre o hardware ou sobre a integração entre esse substrato físico e o software que o governa. O diploma abre caminho do desenvolvimento de chips ao gerenciamento de dados em grandes empresas.
O que distingue o engenheiro de computação do cientista da área é a forma de encarar o problema. A ciência da computação se debruça sobre fundamentos e lógica de programação; a engenharia mira o produto que vai existir no mundo. “Grosso modo, a engenharia de computação é mais ligada ao hardware”, afirma o pró-reitor adjunto de graduação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Pedro Pereira.
Na ponta oposta da cadeia, junto ao usuário, está a graduação chamada de engenharia de software (ou sistemas). Na UFMG, esse engenheiro é descrito como alguém que precisa “entender diferentes realidades e traduzir aquilo em novos programas, softwares, para melhorar o fluxo de trabalho das pessoas”.
Essas áreas também ajudaram a desmitificar o imaginário social do engenheiro. “Quando penso em engenheiro, vem aquela imagem do engenheiro civil na construção com capacetinho e tal”, diz João.
Diferentemente da medicina ou da veterinária, a rotina de um engenheiro raramente aparece no dia a dia visível do cidadão comum. Sem uma referência, a escolha recai sobre o nome do curso, e a confusão entre as diferentes engenharias acaba acontecendo. Professores ouvidos pela Folha dizem que a dificuldade aparece cedo, já nos primeiros anos de graduação.
A engenharia de telecomunicações é uma das mais confundidas entre vestibulandos, ora tomada pela elétrica, ora pela eletrônica. A área cuida da comunicação entre dispositivos, das redes de internet e fibra óptica à telefonia móvel e aos satélites. O engenheiro planeja e gerencia essa infraestrutura, atuando também em segurança cibernética e integração de sistemas.
A eletrônica, por sua vez, opera onde a energia elétrica encontra a informação. Circuitos, sistemas embarcados, robótica, redes 5G, equipamentos médicos. Enquanto a elétrica tradicional lida com alta tensão, a eletrônica trabalha com baixa potência.
O diretor da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sérgio Lima Netto resume com humor a diferença entre as graduações. “Se você botar o dedo na tomada de engenharia eletrônica, não vai te dar grande choque.” Dentro de um único curso, ele afirma, existem na prática dez cursos de eletrônica diferentes.
Com o avanço da inteligência artificial, alguns desses cursos já estão passando por reformulações. A Unesp aponta uma crescente demanda por especialistas em IA e dados, e define o engenheiro moderno como um integrador tecnológico estratégico. Na USP, a engenharia eletrônica e de sistemas computacionais ganhará uma nova graduação voltada à interface entre hardware e software, em áreas como semicondutores e IA.
ENGENHARIA DE COMPUTAÇÃO
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 71
- O que o aluno vai aprender: Nos dois primeiros anos, o aluno passa pelas ciências básicas, cálculo, física e álgebra. A partir daí, a graduação reúne conteúdos de software e hardware. O aluno aprende programação, arquitetura de computadores e desenvolvimento de sistemas, com base também em manutenção e suporte .
- O que a área faz: Desenvolve sistemas computacionais, atuando tanto no software quanto no hardware —área em que a tecnologia é ao mesmo tempo ferramenta e produto final.
- Profissões depois de se formar: Atuação em suporte especializado, desenvolvimento de produtos tecnológicos, manutenção de sistemas complexos e indústria de hardware.
ENGENHARIA DE SOFTWARE / SISTEMAS
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 24
- O que o aluno vai aprender: Entender diferentes realidades e traduzi-las em novos programas e softwares para melhorar o fluxo de trabalho das pessoas. Diferente da ciência da computação pura, o foco é na aplicação e no entendimento das demandas das equipes e clientes.
- O que a área faz: É voltada especificamente para o desenvolvimento de softwares a partir de uma infraestrutura (hardware) que já existe. O engenheiro de sistemas atua “na ponta”, analisando o que o cliente precisa para criar soluções lógicas eficientes.
- Profissões depois de se formar: Desenvolvedor de software, analista de sistemas, gestor de projetos de TI e consultor de processos tecnológicos.
ENGENHARIA DE TELECOMUNICAÇÕES
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 11
- O que o aluno vai aprender: Recebe uma formação para desenvolver sistemas de comunicação, com possibilidade de especialização em redes 5G e nanotecnologia. O currículo ainda aborda desde a infraestrutura de dados até a segurança cibernética.
- O que a área faz: Concentra-se no desenvolvimento de dispositivos eletrônicos e redes de comunicação de dados (internet, fibra óptica, satélites e redes móveis).
- Profissões depois de se formar: Planejamento e gestão de projetos de comunicação, especialização em conectividade em empresas de telefonia e redes, e segurança cibernética.
ENGENHARIA ELETRÔNICA
- Número de graduações oferecidas no Sisu: 16
- O que o aluno vai aprender: O foco é em circuitos, sistemas embarcados, robótica, controle industrial e nanotecnologia. É considerada uma das áreas com carga teórica mais pesada e difícil no início da graduação.
- O que a área faz: Desenvolve dispositivos e sistemas que operam em baixa potência e tensão, como componentes de celulares e computadores.
- Profissões depois de se formar: Projetista de circuitos, engenheiro de automação e robótica, desenvolvedor de sistemas para a indústria aeroespacial e de defesa, e especialista em equipamentos médicos de alta tecnologia.


