O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que o seu homólogo da Rússia, Vladimir Putin, está cada vez mais isolado e é pressionado por sua cúpula para encerrar a guerra, iniciada em fevereiro de 2022. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian publicada nesta terça-feira, 9, o líder ucraniano disse que Moscou acumula baixas militares elevadas, vê sua influência diminuir na Europa e tenta sustentar o conflito com base em “mentiras” propagadas pelo presidente russo.
Zelensky voltou a cobrar sistemas de defesa antiaérea e sugeriu que países europeus desenvolvam uma alternativa aos mísseis Patriot, de fabricação americana. Ele também avaliou que o atual momento militar é o mais promissor para Kiev em cerca de dois anos e meio. O ucraniano alegou, ainda, que as tropas inimigas não têm avançado no campo de batalha.
“Não podemos dizer que a Rússia está perdendo esta guerra. Mas podemos dizer que eles estão perdendo a iniciativa a cada dia”, afirmou ele.
De acordo com Zelensky, o Exército russo registra mais de 30.000 baixas por mês. Desse total, entre 23.000 e 24.000 seriam soldados mortos, enquanto os demais ficariam gravemente feridos. O presidente acrescentou que o número real pode ser ainda maior e argumentou que esses índices demonstram que o Kremlin está longe de alcançar uma vitória decisiva.
As declarações ocorrem em meio à intensificação dos ataques russos contra cidades ucranianas. Zelensky citou uma ofensiva recente que teria envolvido 73 mísseis e 656 drones, deixando 18 mortos em Kiev e Dnipro, incluindo uma criança de 3 anos retirada dos escombros de um prédio residencial.
As ‘mentiras’ de Putin
Ao comentar a postura de Putin, Zelensky afirmou que pouco importa se russo recebe informações equivocadas dos seus comandantes ou se está deliberadamente desconectado da realidade. Para o ucraniano, Putin construiu sua narrativa política sobre falsidades desde o início da invasão. “Ele mente desde o começo. As mentiras funcionam como uma cola para unir diferentes partes da sociedade russa”, disparou.
O líder ucraniano também afirmou que Moscou vem acumulando derrotas políticas. Ele citou a derrota do premiê húngaro Viktor Orbán, um aliado de Putin, nas eleições gerais deste ano, os reveses de candidatos pró-Kremlin em países como Moldávia e Armênia e a perda de influência russa na região como um todo.
“Eles estão isolados dentro da Europa e também dos Estados Unidos. Então, estão sozinhos”, declarou.
Alerta a Trump
Na contramão das críticas expressas a Putin, Zelensky evitou atacar diretamente o presidente dos EUA, Donald Trump, que iniciou seu segundo mandato sob promessas de encerrar a guerra. O ucraniano disse ter alertado repetidas vezes o republicano de que o presidente russia estaria manipulando negociações e usando a Casa Branca em benefício próprio.
“Sempre disse ao presidente Trump que Putin está mentindo. Ele joga com você, joga com a Casa Branca”, afirmou, acrescentando ser grato ao apoio do povo americano.
Ao mesmo tempo, reconheceu que a atenção de Washington se voltou para o Oriente Médio e lamentou que Kiev nunca tenha recebido o mesmo volume de ajuda militar destinado a aliados estratégicos dos Estados Unidos na região.
Na entrevista, Zelensky também destacou a transformação da Ucrânia em uma potência na produção de drones desde o início da guerra. Segundo ele, o principal equipamento de que o país ainda necessita são os sistemas Patriot, considerados essenciais para interceptar mísseis balísticos russos.
O ucraniano participou de reuniões em Londres com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer; o chanceler alemão, Friedrich Merz; e o presidente francês, Emmanuel Macron. Ele, então, renovou o apelo para que os aliados ajudem a “fechar os céus” do país. Ele sugeriu ainda que parceiros europeus desenvolvam uma alternativa europeia aos Patriots e ofereceu, em contrapartida, compartilhar a experiência acumulada pela Ucrânia em operações com drones.
“É uma informação sem preço. Há um enorme volume desse conhecimento”, disse.
Questionado sobre a possibilidade de recuperar a Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, Zelenskyy se ateve a indicar que as forças ucranianas trabalham para destruir a infraestrutura logística que sustenta a presença militar russa na península.
Bastidores das negociações
O presidente também revelou ter se encontrado em maio com o bilionário russo Roman Abramovich, que se dispôs a atuar como um canal informal de comunicação com Putin. Zelensky informou que deixou claro ao empresário que jamais abriria mão da região de Donbas — uma demanda do Kremlin — em uma eventual negociação.
“Acho que existem pessoas diferentes ao redor de Putin. Metade quer continuar esta guerra. Metade quer pará-la. Os empresários entendem que a economia russa está em uma situação terrível. Está muito próxima do colapso”, afirmou.
A entrevista foi concedida pouco antes de um encontro com o rei Charles III, com quem Zelenskyy diz ter desenvolvido uma relação próxima desde o início do conflito. Ele afirmou que gostaria de receber o monarca britânico em breve, caso as condições de segurança permitam. “A Ucrânia ama Sua Majestade. Gostaria muito de convidá-lo para Kiev. Talvez ainda este ano”, disse.


